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serra do cipó

Na beira do lago  um paredão. A serra, o rio,  o silêncio profundo  a ausência humana. Escuto um som,  ruído longínquo olho para o alto, identifico mais um avião seguindo ao norte. A poeira do forró  ficou impregnada no nariz. O candombe do açude aqueceu o corpo. O quentão afastou o frio e a lua no breu iluminou a estrada, quilombo em festa. Enrolei no Cipó, fiquei mexido outra vez. 

com deus e com gelo

O cortejo desce a ladeira. A caixa quase motorizada passa a roda no pé de um, foi dois.  O vendedor segura na frente, enquanto a esposa  mal humorada  conduz o carrinho por trás. Alguém exercendo a educação diz alto: fica com Deus. O vendedor alegre responde: e com gelo. Nesse instante o tempo pareceu outro. O trompete desafinou, a chuva caiu, os pingos engrossaram, a descida virou subida, a perna de pau agarrou no bueiro, o refresco da chuva virou incômodo, e nós escondemos debaixo do caminhão. Enquanto um oferece: você quer amendoim? O outro grita: não tenho dente. O calor infernal abriu espaço para o vento frio. A vontade de andar para trás, pegar um uber, meter o pé parecia traição, fiquei. De frente um galpão, paredes pretas e luz neon, no alto “church” escrito pensei que fosse uma filial da famosa balada, quando vi Jesus na fachada entendi que não. 

uma noite de artes plásticas

O museu,  que também é galeria com suas luzes acesas iluminou diferente no centro agitado de uma terça-feira. De pós academia, acertei no caminho. Encontrei uma vernissage.  De short tactel  e camiseta,  mal percebi o único dress code possível em meio a rotina. As bichas estavam lá,  meio pavão, meio galinha da angola,  na porta todas fumando tipo cruela no mais clichê filme Disney. Outra acabou de entrar, de casaco em pleno abril, 24 graus. Na recepção,  o porteiro programado pergunta: Qual exposição? Gostaria de dizer: Na com coxinha e cerveja. Ele com a cara de dúvida pensando que eu, ali, não era do meio, com suas olheiras o indigesto entendeu, e resolveu pôr fim ao constrangimento.  No primeiro piso, saxofone,  todos de preto  uns salgadinhos gelado, o frango da empadinha estava bem temperado  mas tudo gelado, de menos o ar condicionado. As madames não paravam de chegar em contraste com as artistas essas sim, autênticas,  ...

pra chamar o verão

Das montanhas gerais o rio frio, a mata escura, a bruma densa, o sol tímido, indicam a estação do ano. A bandeirola de papel já desbotada, o chão marcado pela fogueira, a playlist exausta, a piada gasta “olha a cobra”. A baixa temperatura,  a introspecção da vida. Os ventos de agosto  chegaram, bandeiras brancas subiram. É hora daquele sentimento  bem conhecido, desejado, um tal de algo terminando, o fim, o mito, a miragem do 31 de dezembro.  O verão,  a festa, a pele descoberta, o suor na testa, o cc alheio, a humidade alta, a cama molhada, o sono interrompido, a sinfonia dos mosquitos, o cansaço, a rotina alterada, a resenha que alivia, a praia , a cachoeira, o rio, a sequência de feriados, o churrasco, o carnaval. O logo ali, a ansiedade que não passa, o tempo que corre, a lua indicando os ciclos, o eterno retorno.

paguei sem dever

Na geladeira, um coração. A galinha botou outro ovo,  o empurrou,  quebrou, todas comeram.  Escuto um uivo,  som grave, mexeu comigo. Noite de outono, pouca luz.  No encontro do azeite com a água quente, os elementos não se misturaram, a manteiga derreteu, o alho queimou, o fogo alto devorou tudo.  O sol foi embora às 17, temperatura caiu,  12 graus. A impaciência do paciente me revelou o segredo da espera, não existe. Afirmo.  Não deveria ter proposto,  Não deveria ter convidado, Não deveria ter olhado profundamente  como cachorro com fome.  Talvez fosse mais sede do que fome. Me equivoquei, não tem volta, agora é sem rodeios, se vira. Na espreita, observo o fim das coisas. Não é pessimismo, é a certeza já dita, o comportamento que se repete, o tempo que entrega, o erro familiarizado.  Conheço bem esse movimento, o jogo já jogado, o capeta bem abraçado, a rapadura que não amolece. Um projeto mal elaborado tentando se ajeitar a...

6 de março de 2025

De repente, 30! 6 de março, sol em peixes, Belo Horizonte, final de verão, carnaval, ano novo.  Daqui, do sul do mundo, é no balanço do barco, na ginga diária que a vida segue prestando.  Três décadas do meu querer. Viva o desejo, o calor, a chama sempre acesa. Onda forte não derruba e bendita a enchente que inunda a casa do traidor. Que o mal nunca me encontre, que a morte me perca e que a saúde continue sempre farta.  Adê-okô,mãe!  É sobre continuar sendo rio, correnteza, em fluxo, furando rocha que ameaça represar. Ser pororoca, cabeça d 'água, virar oceano.  Agradeço ao meu Odú.  Vivi muito,  E viverei tudo o que me foi confiado a viver.  É tempo, é tempo zara tempo!  Laroyê Esú. Fartura e axé!

o que não tem

Falta cuidado, falta metáfora, falta poesia, falta investimento, falta querer, falta verdade,  falta comer por inteiro,  falta comer quente (e às vezes se queimar), falta vontade, falta tempo, falta o presente, falta caráter,   falta olho no olho olhar. Falta futuro.