sexta, sábado, domingo: outubro, novembro, dezembro
Chegou novembro, é natal
na espera derradeira pelo fim ficcional.
Da varanda da casa da vó,
tinha a chuva presente,
a garoa intermitente.
Ali estetizei
as coisas,
a vida.
A chuva intensa sobre a lagoa,
as erupções das gotas no espelho d’água,
os postes de luz borrados pela chuva,
Tudo virou imagem.
A ceia farta
bem comida antes da hora,
na expectativa do réveillon,
da virada.
O medo da lagoa em festa.
Não tinha perigo,
nem festa,
na ausência da chuva
eram pessoas sentadas na orla
sem opção além do show da virada.
Desligaram o Roberto Carlos.
Eu estava lá,
na beirada da água, na casa e na rua Paris.
Gostava da chuva caindo
de mansinho,
como hoje.
O pai nosso demorado,
a fome sem disfarce,
o engradado esvaziado,
o repeteco das piadinhas,
as brigas pós álcool,
os segundos da contagem,
o estouro da cidra,
o abraço suado
(às vezes forçado).
Tudo compõe.
Na chuva,
a beleza do eucalipto em movimento,
quase tombado pelo vento
e seu cheiro exalando,
defumando sem fumaça,
já sentiu?
Vejo luzes piscando.
Sinto a roupa úmida,
o pé encharcado,
sei que é chuva.
Na bolsa,
a sombrinha enrolada na sacola do Epa,
no asfalto a poça d’água formou um coração,
meio luto.
Ouço os fogos.
A Pampulha e seus 18km
não é Rodrigo de Freitas,
nem Ipanema,
nem Iracema,
nem paranoá.
De longe a serra,
no fundo encoberta.
Uma dança se forma
entre as nuvens aceleradas no movimento leste-oeste.
A grama verde,
a vegetação exuberante,
o jacaré gordo,
a garça com seu bico amarelado fisgando um peixe.
Ficou lá, tá aqui.
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