com deus e com gelo

O cortejo desce a ladeira.
A caixa quase motorizada passa a roda no pé de um,

foi dois. 

O vendedor segura na frente,

enquanto a esposa 

mal humorada 

conduz o carrinho por trás.


Alguém exercendo a educação diz alto:

fica com Deus.

O vendedor alegre responde:

e com gelo.


Nesse instante o tempo pareceu outro.

O trompete desafinou,

a chuva caiu,

os pingos engrossaram,

a descida virou subida,

a perna de pau agarrou no bueiro,

o refresco da chuva virou incômodo,

e nós escondemos debaixo do caminhão.


Enquanto um oferece:

você quer amendoim?

O outro grita:

não tenho dente.


O calor infernal abriu espaço

para o vento frio.

A vontade de andar para trás,

pegar um uber,

meter o pé

parecia traição,

fiquei.


De frente um galpão,

paredes pretas e luz neon,

no alto “church” escrito

pensei que fosse uma filial da famosa balada,

quando vi Jesus na fachada

entendi que não. 


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