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pra chamar o verão

Das montanhas gerais o rio frio, a mata escura, a bruma densa, o sol tímido, indicam a estação do ano. A bandeirola de papel já desbotada, o chão marcado pela fogueira, a playlist exausta, a piada gasta “olha a cobra”. A baixa temperatura,  a introspecção da vida. Os ventos de agosto  chegaram, bandeiras brancas subiram. É hora daquele sentimento  bem conhecido, desejado, um tal de algo terminando, o fim, o mito, a miragem do 31 de dezembro.  O verão,  a festa, a pele descoberta, o suor na testa, o cc alheio, a humidade alta, a cama molhada, o sono interrompido, a sinfonia dos mosquitos, o cansaço, a rotina alterada, a resenha que alivia, a praia , a cachoeira, o rio, a sequência de feriados, o churrasco, o carnaval. O logo ali, a ansiedade que não passa, o tempo que corre, a lua indicando os ciclos, o eterno retorno.

paguei sem dever

Na geladeira, um coração. A galinha botou outro ovo,  o empurrou,  quebrou, todas comeram.  Escuto um uivo,  som grave, mexeu comigo. Noite de outono, pouca luz.  No encontro do azeite com a água quente, os elementos não se misturaram, a manteiga derreteu, o alho queimou, o fogo alto devorou tudo.  O sol foi embora às 17, temperatura caiu,  12 graus. A impaciência do paciente me revelou o segredo da espera, não existe. Afirmo.  Não deveria ter proposto,  Não deveria ter convidado, Não deveria ter olhado profundamente  como cachorro com fome.  Talvez fosse mais sede do que fome. Me equivoquei, não tem volta, agora é sem rodeios, se vira. Na espreita, observo o fim das coisas. Não é pessimismo, é a certeza já dita, o comportamento que se repete, o tempo que entrega, o erro familiarizado.  Conheço bem esse movimento, o jogo já jogado, o capeta bem abraçado, a rapadura que não amolece. Um projeto mal elaborado tentando se ajeitar a...

6 de março de 2025

De repente, 30! 6 de março, sol em peixes, Belo Horizonte, final de verão, carnaval, ano novo.  Daqui, do sul do mundo, é no balanço do barco, na ginga diária que a vida segue prestando.  Três décadas do meu querer. Viva o desejo, o calor, a chama sempre acesa. Onda forte não derruba e bendita a enchente que inunda a casa do traidor. Que o mal nunca me encontre, que a morte me perca e que a saúde continue sempre farta.  Adê-okô,mãe!  É sobre continuar sendo rio, correnteza, em fluxo, furando rocha que ameaça represar. Ser pororoca, cabeça d 'água, virar oceano.  Agradeço ao meu Odú.  Vivi muito,  E viverei tudo o que me foi confiado a viver.  É tempo, é tempo zara tempo!  Laroyê Esú. Fartura e axé!

o que não tem

Falta cuidado, falta metáfora, falta poesia, falta investimento, falta querer, falta verdade,  falta comer por inteiro,  falta comer quente (e às vezes se queimar), falta vontade, falta tempo, falta o presente, falta caráter,   falta olho no olho olhar. Falta futuro.

calma vida

Outro verão,  de novo. Salvador densa, ofegante.  Brotas, Federação, Preguiça, 2 de julho, Passeio público, Ondina, Barra, Pelô, Santo Antônio, Saúde, Campo Grande, a lancha, a festa, o Bonfim.  Calma vida,  calma.  O grito da criança, o frango na areia, o queijo com goiabada, o pastel, o quiabo na feira. As três opções de suco: umbu, cajá e cupuaçu. A beleza da negrura constante nas coisas.  Da igreja escuto ijexá,  na praça vejo beatas e baianas,  na barraca de acarajé finalizei minha busca.  O sagrado profanado,  O profano com cadência. O dengo, o molejo, a maresia.  O sal no corpo grudou, a vontade de retorno bateu. Sempre tem algo que fica. 

como fugir do natal?

A uva gorda, lavada  foi posta na mesa, misturaram a maionese do pote duvidoso no salpicão, a passas sumida foi acrescentada de última hora enquanto o arroz branco secou no fogo alto. O pudim foi desinformado, quebrou  e o pavê está com menos dois pedaços. A cozinha esquenta,  parece candomblé em dia de festa.  Provando daqui, provando dali,  provei a ceia inteira faltou o peru coitado, suando no forno quente a 250 graus seu cheiro atiçou a fome, faltou a rabada.  Esqueceram da farofa,  da batata, mas trouxeram angu. Se tivesse o quiabo viraria almoço de domingo em Minas Gerais.  Televisão ligada na novela, Jovem Pan na Alexa, pagode no karaokê do vizinho, foguete na rua, e a tão esperada chuva não deu as caras. Mais um gole de café pra distrair a fome. O microondas avisa, o feijão foi aquecido. As castanhas já diminuíram, o pavê perdeu mais um pedaço, a uva não tem mais cacho,  o vinho não durou três taças a ceia na marra foi liberada. Os ce...

sexta, sábado, domingo: outubro, novembro, dezembro

Chegou novembro, é natal na espera derradeira pelo fim ficcional. Da varanda da casa da vó, tinha a chuva presente,  a garoa intermitente. Ali estetizei  as coisas, a vida. A chuva intensa sobre a lagoa, as erupções das gotas no espelho d’água, os postes de luz borrados pela chuva, Tudo virou imagem.  A ceia farta bem comida antes da hora, na expectativa do réveillon, da virada.  O medo da lagoa em festa. Não tinha perigo,  nem festa, na ausência da chuva eram pessoas sentadas na orla sem opção além do show da virada. Desligaram o Roberto Carlos.  Eu estava lá,  na beirada da água, na casa e na rua Paris. Gostava da chuva caindo de mansinho, como hoje.  O pai nosso demorado, a fome sem disfarce, o engradado esvaziado, o repeteco das piadinhas, as brigas pós álcool, os segundos da contagem,  o estouro da cidra,  o abraço suado (às vezes forçado). Tudo compõe.  Na chuva, a beleza do eucalipto em movimento,  quase tombado pelo ven...